sábado, 29 de maio de 2010


COMO SERIA, FILHA?...



Como serias, filha,
como seria,
o teu florir de botão de flor,
o teu sorrir, pela mão do amor
que eu te daria?

Como serias, filha,
como seria,
o despontar do teu aprender,
o desfolhar que o teu bem querer
perfumaria?

Como serias, filha,
como seria,
o teu viver aprendendo as dores,
o teu crescer no minguar das cores
da inocência?...

Quis Deus que fosses para sempre um anjo,
que me ficasse para sempre a imagem
de uma boneca preciosa e frágil...

Como seria, filha,
como serias?...
Legar-te o Céu eu não poderia,
e só o Céu tu merecerias...

ALTAR


Ninguém sabe, mas no peito
Tenho um altar pequenino,
Que todo o dia enfeito
De flores frescas e saudade,
Em devoção e carinho...

Ninguém vê, mas há uma luz
A iluminar-me o caminho
E a esbater minha cruz,
De imponderável pesar,
Na sombra de um anjinho.

Ninguém diz, mas só eu sei,
Quanto me feriu o espinho
Da coroa que suportei
Na minha fronte a sangrar,
Quando te envolvi em linho...

Ninguém sabe que o sudário
Onde depus com jeitinho,
(Como em rico relicário),
O teu corpo delicado -
É meu peito, o teu bercinho...

quarta-feira, 7 de abril de 2010


QUERO MORRER NOS BRAÇOS DE UM ANJO...



Quero morrer nos braços de um anjo

que saiba a cor dos olhos que tenho,

e me encontre no céu um canto qualquer

onde eu possa ser de algum préstimo...



Posso ser pastora das nuvens que balem

murmúrios de vento num prado em azul,

depois, tecelã das asas dos anjos,

ou mestre-escola dos querubins...



Quando eu morrer, nos braços de um anjo,

quero reconhecer-lhe o colo macio,

aprender com ele a perspectiva única

de ver o Mundo com olhos de Deus...



Quero ser tudo o que não consegui ser,

quero ser melhor do que fui capaz,

mais forte que a Vida, mesmo que na Morte,

de própria vontade doar-me, inteira!



Quero que o meu Anjo me tome nos braços

e me encontre um canto de paz junto a si,

que me desvende o papel para que morri...

ou, simplesmente, me deixer ser... Mãe...






segunda-feira, 29 de março de 2010


PARA O CÉU NASCIDA



Trazias na pele o perfume doceAdicionar vídeo
Das rosas de Inverno beijadas de sol,
E fios de seda em arabesco
Bordavam a fímbria do lençol
Onde te deitei, nascida de fresco,
Emoldurando a beleza precoce
Do teu rostinho delicado!

Trazias contigo a luz da manhã
E a cor fresca e nova de um botão de flor
Ungido de orvalho e inocência,
Recém revelado milagre de amor,
Anjo permitido a humana aparência,
Envolto em asas da prosaica lã,
No teu bercinho, a meu lado!

Trazias a sorte do céu e do adeus,
Mas enquanto comigo, foste puro afago,
E nem esta dor em saudade que trago
Me descrê do milagre que me és em Deus!...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010


Das nossas manhãs (e despedidas)


Permeio esta saudade,
que é meu único consolo,
com os sonhos que deludo,
e ainda sinto o teu cheiro,
a tua pele de veludo
róseo e morno, e ainda quero
afagar-te no meu colo...

Penteio os fios de seda
do tear do teu cabelo,
com jeitinho e laços ledos,
e ainda os sinto iludir-me
a carícia dos meus dedos,
e o teu beijo, que me dói,
por tanto apetecê-lo!...

Passeio o gesto de ter-te
nas minhas mãos que te vestem
o corpinho mal desperto,
com mimos e mil cuidados,
e os botões que te aperto
ao nácar da tua nuca,
são beijos que ainda sentem!

Premeio a dor que me toma
com a ilusão de deixar-te
só, só por um bocadinho...
e ainda voa o teu beijo
da tua mão, passarinho,
e, com um pueril "chau-chau",
ao meu peito vem pousar-se!

Ponteio, a luz tua, a via
que me leva ao alcançar
do encontro que me iludes,
e é com essa claridade
que alimento este passar
entre as cruzes que me ajudas
por milagre, a carregar!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

SÓ TU, TALVEZ...




Só tu,
talvez,
que estás tão acima
do azul que abraça este vale
das lágrimas onde mergulho
a saudade que me aperta
e me aparta
do Céu...

Só tu,
talvez,
tão acima desta luta
que travo com a ausência
da visibilidade da luz,
saibas o quanto em dor
me coube
em Vida...

Talvez só tu
(e Deus),
saibas a força que sou,
a mão que me amparou
quando os espinhos que teci
da coroa que mereci,
me doeram
na Alma...

E a ti
(e a Deus),
ergo os olhos já sem lágrimas,
recolho-me às minhas margens
e vejo fluir os rios
que purifiquei
em Ti...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009




HOJE CHOREI PÉTALAS...




Vinte e quatro pétalas,

desgarradas da flor

que não chegaste a ser...

em cada derramo

um hino supremo

e ainda te amo,

ainda te amo...



Vinte e quatro pérolas

de um diadema

que te teço em lágrimas,

que te meço em séculos

(ou serão segundos?...)

Ainda te sinto,

ainda te sinto...



Dos meus olhos nascem

pétalas em cadência,

soltam-se em aroma,

pousam-me nos lábios,

arrastam-me um beijo...

...e ainda te vejo,

ainda te vejo...
(8 de Dezembro de 2009)