segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MEUS OLHOS (A)MAREJADOS

As águas dos teus olhos eram doces,
corriam ao sabor do meu enlevo
em olhares adornadas d'arcos de íris
- antecâmaras dos nossos abraços...

As águas dos meus olhos eram chuvas
mansas, em descuido ímpio de Osíris,
uniam-nos crentes nós, cegos laços
- da Vida te esperava eterna posse...

As águas do teu rio eram tão doces,
que na foz me amargaram o beijo último
- e o ardor me salgou os olhos tristes...

As águas dos meus olhos marejaram,
e guardaram para sempre as tuas águas
- nelas busco, dia-a-dia, as minhas chuvas...

domingo, 24 de outubro de 2010

Canta-me o tempo que passa...

Reza-me o tempo que passa,
Os mistérios sinuosos
Onde ajoelho a saudade.

(que sei eu da eternidade,
dos anjos do céu, de Deus...?)

Resta-me a vida que traça
Refrigérios tortuosos
Ao calvário da verdade.

(que sei eu da eternidade,
dos desígnios, do adeus...?)

Canta-me o tempo que passa,
Adágios misericordiosos,
Baixinho, pra não chorar.

A eternidade é um instante,
e o céu... sabe esperar.

(eu...? ainda estou só a aprender...)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CONCEPÇÃO

Separa-nos só o véu que me atravessa,
do meu ventre às tuas asas, anjo meu…
separa-nos só o céu que me confessa
que a eternidade é minha cúmplice, e eu,
mãe ainda,
embalo-te no meu útero de esperanças,
alimento-te de fluidos essenciais,
(que das lágrimas retêm semelhanças),
até que eu parta, anjo meu, aos meus sinais.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Botões que nos apertam

Sabes?
Sabes.
Ainda tenho no peito
o calor doce que deixaste,
doce amor, nem a saudade
te rouba o lugar cativo,
trago-te sempre comigo,
ao alcance de um beijo meu.
Sabes?
Foi tão forte o nosso abraço,
que nunca desapertou...
e o perfume que deixou,
de tão doce, fez nascer
rosas dentro do meu peito,
doce amor, ainda em botão,
à espera que o teu toque
as faça abrir com jeitinho
e desaperte em ternura
este amor que em mim perdura
e que cuido com carinho.
Doce amor, virá um dia
em que enfim desfolharão,
mas sei que te tenho perto
pra me dares a tua mão
e me mostrares o caminho
sobre as pétalas já sem ninho...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

RIO DOCE


Tinhas nos olhos um rio doce
e eu fui margem que te quis tanto!...
Mas quis-te a foz mais do que eu
te pude amar ou te prender...
E nas dores minhas de te perder
salguei meus olhos, tornei-me mar,
fui o teu berço de desaguar...

Tinhas nos olhos um rio doce
que guardei dentro dos meus,
mas da mistura que fiz de nós
só o azul aconteceu,
já que em pura sublimação,
todo o teu ser se elevou,
todo o meu ser é reflexão:
mar desespero e puro céu...


terça-feira, 13 de julho de 2010

NO MEU COLO AINDA...

Ficou-me, acerca do gesto,
Um hábito de doce amimar…
No olhar, uma gota
De distante orvalhar.
E um nome infante
De presente adorar
Nos lábios de círios
Em aceso rezar…

Ficou-me, no ar que me ronda,
Um leve sopro a animar

Perfumes de rosas.
E no caminhar
Vestígios de vida
De eterno pisar
Nos espinhos que tenho
Que atravessar

Longe do teu toque,
Perto do teu guardar…

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Onde estáveis, lágrimas?...


Onde estáveis, lágrimas,
quando mais de vós precisei?...

onde estavas, fonte morna,
quando gelo me tornei,
petrificando na alma
gumes da dor que pisei?...

onde estavas, manto doce,
quando por dentro chorei,
vitrificando nos olhos
humidades que sangrei?...

em fome e insipidez,
em sede e influidez,

a vós, lágrimas, vos direi:

de tanta dor eu morri,
que sem querer
vos matei!...